quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Uma Aventura de Carro pelos Caminhos da América do Sul - Capítulo VII


CAPÍTULO VII

CHILE

"Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamas". Ernestro Che Guevara

            A última impressão que eu havia tido dos postos fronteiriços chilenos é de que eles eram chatos e exigentes. Imaginava que agora eles iriam criar uma burocracia danada para liberar a nossa entrada ali. Pois, na minha passagem pelo Chile em 90, eles me fizeram esvaziar a mala umas quatro vezes desde a minha entrada pela região de Mendoza até a saída em Arica. E outro tanto na volta. Deixei o Márcio e o Binho  de sobreaviso.
            Dez minutos depois, sem nenhuma burocracia, nosso carro e nós estávamos liberados para andar no Chile. Incrível, pensei. Só uma explicação eu tinha naquele momento: final da era Pinochet. Mais tarde, eu percebi que às vezes guardamos impressões dos lugares, das pessoas e das coisas e usamos estas impressões para nos proteger. Não sei do quê. Tudo isto se chama preconceito. O meu caiu por terra (em relação às autoridades chilenas).
            Atravessando os últimos trechos de montanhas passamos às margens do lindo lago PUYEHUE, avançando até Osorno. Demos uma parada para alinharmos as rodas e consertarmos o pneu furado. Dali nos orientamos pelo mapa e verificamos que teríamos que seguir pela RUTA 5. Essa rodovia corta o país de Sul a Norte (e vice-versa) e obviamente passa pelos mais variados lugares e climas.
            O Chile é um país muito bonito, e por se estender desde o paralelo 18º até o 56º (latitude Sul) e ter a um lado o oceano pacífico e do outro a Cordilheira dos Andes, tem todos os tipos de paisagens e climas possíveis. Já havíamos estado em Punta Arenas e vivenciado um pouco do clima temperado com influências polares. Punta Arenas, vale mencionar, é a cidade do planeta que já sofre os efeitos do buraco na camada de ozônio. Médicos e cientistas aconselham que nesta cidade as pessoas usem óculos escuros no verão e não se exponham demasiado ao sol. Na prática isto é muito fácil, pois a temperatura média anual está na casa dos 5 graus positivos.
            Entramos na ruta 5 e logo começou um temporal. Muita chuva. Muitos e muitos quilômetros sob chuva. Seguindo para  o norte tivemos que fazer um desvio em Loncoche devido a uma ponte que caiu próximo a Pitrufquen. Paramos para jantar em Temuco. Comemos carne, arroz, batatas fritas, alface e tomates, parece que só faltava feijão. Delícia. Nossa última refeição tinha sido na Argentina e a barriga já estava lá nas costas.
            O alvo daquele dia era a cidade de Chillan. Por volta das dez e meia da noite, chegamos e nos dirigimos a UAC6. Enquanto entrávamos no campus da universidade percebemos uma movimentação anormal para aquele horário. Logo um dos alunos após nos identificarmos, chamou o preceptor. Com poucas palavras explicamos-lhe nossa viagem e nossos objetivos para aquela noite.
            Ele respondeu:
            Bien, ahora sigam-me! (Bem, agora sigam-me)
            E fomos atrás dele sem saber direito pra onde. Ele caminhou e parou do lado da quadra de esportes. Cruzou os braços e seriamente ficou a olhar. Nós, que não estávamos entendo bulhufas, ficamos olhando uns para os outros para tentar imaginar o que iria acontecer. De repente, começaram a sair de dois diferentes dormitórios masculinos, vários estudantes. Cada um trazia uma toalha na mão ( algumas molhadas e com um nó na ponta ). A um sinal não sei de quem, começou a "briga". Deram toalhadas uns nos outros até não poder mais. Boquiabertos, sem entender como era possível uma cena daquelas em um colégio interno, olhamos para o preceptor. No meio da sua seriedade pudemos ver um sorriso maroto. Logo, um aluno brasileiro que veio ao nosso encontro, pôs-se a explicar o que estava sucedendo:
            - É o "Cátche"! Ocorre todo final de semestre. E é liberado pelo preceptor. Só acaba quando um grupo de estudantes de um dormitório coloca o outro para dentro.
            E assim aconteceu. Não resistindo mais às toalhadas um grupo "fugiu" rapidamente para o seu dormitório. O outro grupo vibrou como quando se faz um gol. E todos foram dormir, pois no dia seguinte começariam os exames.
            Ainda à noite o Binho encontrou um amigo com o qual havia cursado o Ensino Médio, o Maurício. A partir dali o jovem passou a nos mostrar a Universidade e os aposentos onde deveríamos pernoitar. Cedo, no 13º dia de viagem, conversamos com vários jovens de diferentes nacionalidades que ali estudam. O baixo preço e a boa qualidade de ensino atraem jovens de todas as partes do mundo: Austrália, Alemanha, Panamá, Argentina, Peru, Brasil e outros 22 países. Realmente é uma Universidade cosmopolita. Às onze da manhã, o Paulo, um outro brasileiro que encontramos, nos levou até a Rádio FM da Universidade. Fomos muito bem recepcionados e demos uma entrevista ao vivo que durou doze minutos. O nosso castelhano já estava um pouco melhor após o treinamento no Uruguai e na Argentina.
            Ao sairmos do colégio, um jovem estudante de teologia pediu uma carona até Santiago. Tudo bem. Pegamos a estrada e um dia melhor para viajarmos. No caminho o Márcio e eu gastamos mais de uma hora numa discussão aparentemente inútil: " se o aumento da área de atrito de um objeto sobre o solo influi na resistência do aumento ou diminuição da velocidade deste objeto". Não vale a pena relembrar as conclusões que tivemos. Logicamente, como estudante de engenharia, o Márcio deu-nos uma aula naquela tarde. O rapaz que viajava conosco ficou surpreso ao ver o quão acaloradamente cada um defendia a suas idéias. Este foi um aspecto bonito, interessante e doloroso da nossa viagem: descobrir um pouco de cada um de nós. No Chile já estávamos no final da nossa segunda semana de viagem e início da terceira. Pouco a pouco, nós, que nos conhecíamos superficialmente, pudemos aprofundar os laços de amizade. Eu conhecia melhor o Márcio, que era meu companheiro de trabalho. E o Binho, havíamos viajado juntos de São Paulo a Eldorado em outubro de 1992. No entanto, os dois só foram se conhecer durante a nossa longa viagem.
            Quando deixamos o rapaz em Santiago já era noite e decidimos avançar até La Serena. Pegamos algumas montanhas e mesmo à noite percebemos a mudança paulatina da vegetação. O deserto se aproximava e o frio diminuía. Revezando ao volante, chegamos às quatro da manhã em La Serena. Precisamente em frente à escola adventista da cidade. Dormimos até às sete.
            Nos fundos da Escola (bem no fundo) ficavam duas casas. Uma delas era do ex-professor de teologia da Universidade de Chillan e atualmente pastor da igreja adventista da cidade.
Saímos amarrotados do carro e com nossa aparência e sotaque, creio que assustamos o Sr. Eleodoro Castillo. Mas conseguimos desfazer a impressão inicial explicando os objetivos da nossa viagem.
            A família Castillo começava a se preparar para ir à Igreja e nós nos unimos a eles. Tomamos um gostoso café da manhã e lá fomos nós. Assistimos ao culto e no caminho de volta para casa passamos na praia. Era a primeira vez em nossa viagem que víamos o oceano Pacífico. Lindo. Como La Serena é uma cidade mais quente do que Valparaiso e Vina Del Mar, Tornou-se o balneário preferido de grande parte dos chilenos. Belas praias, areia branquinha, mas água fria. O Pacífico é assim na costa da América do Sul: suas águas são muito frias.
            Foi um dos almoços mais divertidos da viagem o que tivemos na casa da família Castillo. Contamos nossas aventuras e ouvimos da vida, das angústias e das vitórias daquelas pessoas tão amigas. O auge foi quando falamos de sobrenomes. Quando o Binho falou que o dele era Silva e que no Brasil era como "mato", ouvimos o sr. Eleodoro dizer:
            - Aqui, é só levantar uma pedra e sai cinco ou seis debaixo dela! Pode ser que não tivesse graça nenhuma mas rimos quase cinco minutos ininterruptamente.
            A tarde descansamos até às cinco e depois fomos ao programa dos jovens na igreja. À noite, os jovens nos convidaram para participar de uma atividade social. Cantamos e dançamos canções de roda em castelhano. O Binho foi o que mais se divertiu, pois pelo menos duas moças não tiravam os olhos de cima dele. Logo após esta divertida brincadeira saímos pela cidade respondendo às muitas perguntas que os jovens faziam sobre o Brasil. Trocamos os endereços para futuras correspondências e fomos descansar à meia noite. Cedinho no 15º dia do Projeto América do Sul nos despedimos da família Castillo e começamos a adentrar o famoso e temido deserto de Atacama.
            A rala vegetação ia cada vez mais cedendo o seu espaço para as pedras e a areia. Logo já estávamos sentindo o ar cada vez mais seco daquele lugar. O deserto de Atacama é o deserto mais seco do mundo. Ali, em vários locais, não se tem registro de chuva desde a chegada dos espanhóis, há mais de quatrocentos e cinquenta anos. Na verdade nunca chove na faixa litorânea da América do Sul, que vai desde La Serena até ao norte do Peru. Em alguns lugares desta região já houve precipitações de chuva, mas não de maneira intensa. E em algumas partes caiu uma garoa, embora seja meio rara. Eles chamam a esta garoa de chuva.
            Ao lado da pista uma paisagem inóspita e monótona. Como estávamos no inverno do hemisfério Sul, havia um pouco de umidade no ar por causa das muitas nuvens. Eu, que já havia passado nesta região durante o verão de 90/91 sabia que estávamos encontrando uma situação mais favorável. Naquela ocasião, minha esposa, minha filha e eu tínhamos que colocar um lenço molhado próximo ao nariz para respirar um pouco de umidade. Se não o fizéssemos, alguns pequenos e sensíveis vasos sanguíneos do nariz poderiam se romper devido a baixa umidade. Paramos para filmar e tirar fotos próximos a Antofagasta. O nosso "câmera man", o Binho, fez-nos o favor de filmar pelas costas o Márcio e eu fazendo "xixi" em pleno deserto. É lógico que o deserto oferecia, cenas melhores. E o pacífico também. Ali, bem ao nosso lado, as águas tinham um quase indescritível tom esverdeado. Aproximamos do mar como que atraídos por um encanto. Fortes ondas arrebentavam nas rochas daquela praia de pedras.
            Assentamo-nos um pouco e conversamos sobre aquele trecho da nossa viagem. Um lugar tão lindo e tão desconhecido. Coisa assim é que faz valer a pena uma viagem como esta. Cenas para se guardar na memória e não esquecer nunca mais. Enquanto refletíamos sobre estes detalhes, vimos entre as fendas das rochas inúmeros caranguejos. Alguns bem grandes. Estávamos batendo papo bem em cima da casa deles.
            A noite já começava a descer sobre nós e seguimos para o norte. Em La Serena havíamos sido alertados para não dirigir à noite devido a perigosa neblina do deserto. Nem ligamos. Estávamos satisfeitos com o nosso avanço, pois dentro do nosso cronograma, havíamos recuperado um dia "perdido" nas terras da Patagônia. Mas a neblina surgiu lá pelas onze da noite. E que neblina. Nunca vimos nada igual. É como uma parede. Não dá para enxergar nem cinco metros a frente do carro. Reduzimos bruscamente a velocidade para meros trinta quilômetros por hora. Isto porque estávamos em uma reta.
            - Cara, isto aqui é assustador! - Disse o Márcio, sem tirar os olhos da pista.
            - É! Foi a única coisa que pude dizer, espantado com a densa neblina, conhecida como "el manto". O Binho estava em seu profundo sono. Naquele lugar, só nos conduzíamos pelas faixas da pista. Ultrapassagem? Nem pensar. De repente víamos os faróis de um carro que vinha em direção contrária. Não dava para saber se vinha longe ou perto. Nesta primeira etapa de neblina o Márcio conduziu por cerca de quarenta minutos nestas péssimas condições. A atenção tem que estar ao máximo e por ser à noite, tem que se forçar muito a vista. É muito cansativo. Às vezes, a neblina dava uma pequena trégua. Quando pequei a direção, enfrentei este tipo de neblina por mais de uma hora. E o Binho também teve que dirigir um tempo nesta desconfortável situação.
            A despeito das dificuldades do caminho chegamos em Arica, a última cidade no extremo norte do Chile. O disco da embreagem estava muito gasto e chiava em baixas rotações. Compramos um disco novo e algumas borrachas para prender o escapamento que estava batendo em baixo do assoalho do carro.
            Após esses consertos necessários dirigimo-nos ao porto. A cena que vimos foi marcante. Inúmeros pelicanos dividiam espaço com os pescadores e barcos. O cheiro característico do porto de Arica também é difícil de esquecer. Às vezes, algum pelicano mais atrevido, fazia um voo rasante sobre a nossa cabeça. Como este pássaro possui uma grande envergadura, tínhamos que tomar cuidado para não trombarmos com suas asas. A presença dos pelicanos ali é um fato tão rotineiro que parecem ser ignorados pelos pescadores.
            Surge então nas águas um animal que rouba a cena dos pelicanos: uma lontra. Entre um mergulho e outro pudemos ver seu "show" entre os pelicanos. E com alguma dificuldade conseguimos filmar alguns segundos da aparição da lontra.
            Arica era uma cidade peruana, mas com a guerra do pacífico no século passado, os chilenos conquistaram mais esse pedaço do deserto. Embora esteja em um lugar tão inóspito, é uma cidade progressista e agradável. Enquanto caminhávamos por suas ruas comprando lembrancinhas, pudemos observar algumas construções mais antigas. A que mereceu destaque foi o prédio da antiga ferrovia que ligava Arica a La Paz, capital da Bolívia. Em frente àquele edifício estava a primeira locomotiva que fez o trajeto completo.
            Perto da hora do almoço despedimo-nos do Chile e nos dirigimos para os trâmites fronteiriços na Aduana do Peru.
  
6. UAC - Universidad Adventista de Chillan

Um comentário:

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